segunda-feira, 12 de outubro de 2015

Sob disfarce de “patriotismo”,
Putin restaura onipotência do Estado
e o culto da personalidade

O artificial patriotismo induzido converge no culto da personalidade de Vladimir Putin. Loja em Moscou
O artificial patriotismo induzido converge
no culto da personalidade de Vladimir Putin. Loja em Moscou



Está em curso uma militarização geral da Rússia, apontou reportagem de AsiaNews. A exaltação do exército e o desejo exacerbado de servir a pátria atingiram níveis máximos do ponto de vista da estatística e da histeria coletiva.

A militarização começa nas escolas, onde se ensina educação militar-patriótica da população, um conceito martelado enfaticamente desde a invasão da Ucrânia.

Ele ocupa o lugar do doutrinamento marxista-leninista em tempos da URSS e é regulado por um programa especial do todo-poderoso governo.

O Ministério da Defesa prepara o plano para os anos 2016-2020. A finalidade é formar as mentalidades das crianças desde o berço e fazê-las soldados da “nova URSS”, orgulhosas de um passado que inclui com destaque a era leninista-stalinista.

Os jovens serão iniciados desde muito pequenos, sendo confiscados pela nova educação entre 1 e 6 anos de idade. Nesse período, são tirados da influência dos pais e passam a depender do Estado, que os iniciará num sistema de ‘valores espirituais’.



Clubes patrióticos alistarão os jovens a partir dos sete anos. A Igreja ortodoxa russa também participará desta fase do doutrinamento, visando convencer os jovens de que eles devem servir o exército, e também para reforçar a falsa ortodoxia do Patriarcado de Moscou. Ela receberá dezenas de milhões de dólares anuais do Estado para essa tarefa.

Ingênuas festas culturais locais não putinistas são alvo da histeria supostamente patriótica e anti estrangeira da nova URSS.
Ingênuas festas culturais locais não putinistas são alvo
da histeria supostamente patriótica e anti estrangeira da nova URSS.
Promover o patriotismo é fundamental para um país. Mas quando essa promoção afasta as novas gerações de seus pais e antepassados, confiscando crianças e adolescentes para pô-los sob o domínio do Estado, o “patriotismo” deixa de ser genuíno.

Ele está sendo monstruosamente deformado, caindo no precipício dos regimes totalitários da velha URSS, objeto das saudades de Vladimir Putin.

Na “nova Rússia” o “patriotismo” está atingindo exageros que o desnaturam e o transformam em instrumento de repressão.

Exemplos de vítimas dessa deturpação

Os animadores de um teatrinho de marionetes e um grupo defensor das florestas acabam de ser denunciados como “agentes do estrangeiro” e poderão ser fechados, como registrou reportagem do The Wall Street Journal.

Para o presidente Vladimir Putin, grupos assim fazem parte de uma “quinta coluna” financiada pelo Ocidente, ameaçam a “ordem constitucional” e são “indesejáveis”.

O grupo Comitê Contra a Tortura, que obteve compensações para oposicionistas torturados pela polícia, foi declarado “agente estrangeiro” em 2014. O crime obviamente foi o de pôr práticas imorais do patrão do Kremlin a nu.

A respeitadíssima associação Memorial, que dedicou um quarto de século para documentar os crimes do stalinismo e recuperar a memória de suas vítimas, foi outro alvo da “campanha patriótica” contra os “agentes estrangeiros”.

Memorial ofendeu a memória de Stalin, um dos grandes homens da era cuja ‘grandeza’ Putin e o Patriarca Kirill almejam recompor, e por isso é “antipatriótica”.

O grupo Jovem Karelia que organiza
shows de marionetes foi apontado como 'agente estrangeiro'
que ameaça a integridade da pátria russa.
O Jovem Carélia – grupo cultural do noroeste da Rússia que faz apresentações de marionetes para crianças no dialeto local, próximo da língua finlandesa – também incorreu nas iras do falso patriotismo e foi declarado “agente estrangeiro” no mês de junho.

Alina Chuburova, diretora de Jovem Carélia, soube que o grupo estava sendo investigado através do chefe do Conselho de Segurança Nikolai Patrushev. Segundo ele, a região da Carélia, cedida pela Finlândia após a invasão da Rússia em 1940, corre o risco de ser reivindicada por nacionalistas finlandeses.

Então as marionetes para crianças em dialeto local tinham que conspirar com os inimigos da pátria!

Alina Chuburova apelou à Justiça pelo disparate “patriótico” do governo. Porém, se perder, deverá pagar uma multa de 500.000 rublos, por não se ter denunciado a si própria como “agente estrangeiro”.

O Ministério da Justiça arguiu que o grupo recebeu alguns políticos finlandeses em 2013 e aceitou um donativo de $10.000 dólares da ONU.


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