domingo, 17 de setembro de 2017

Rússia: uma economia “africana” que sonha com a URSS deitada sobre 7.000 bombas atômicas

Venda de pães e doces perto da estrada de Novgorod
Venda de pastéis perto da estrada de Novgorod
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs





Segundo avaliação do jornal espanhol “El Mundo”, a Rússia é uma superpotência militar com uma economia terceiro-mundista.

A Rússia está muito aquém da Espanha, pois tem o mesmo PIB (Produto Interior Bruto) e o triplo de população. Em outros termos, a renda per capita russa é um terço da espanhola.

Mais ainda, o PIB nominal per capita do Brasil – US$ 11.387 – está acima do russo: US$ 9.054. (Fonte: Brasil, Wikipedia; Rússia, Wikipedia). 

Como as perspectivas econômicas russas são as piores, o jornal lhe aplica pejorativamente o carimbo de “país do Terceiro Mundo”.

Exporta petróleo, gás natural e mais algumas matérias-primas, mas tem que importar todo o resto, porque não produz quase nada. É o esquema de uma economia de país pobre, diz o jornal.

A exceção são as exportações de material militar, em grande parte destinadas a antigos clientes da União Soviética, cujos exércitos só conhecem o armamento russo.

Mas esses compradores são cada vez menos confiáveis e se interessam sempre menos pelas antigualhas russas malgrado as melhorias cosméticas.

A expectativa média de vida na Rússia (62-77 anos para os homens) é mais baixa que a da Bolívia (67-91 anos), com a diferença de que a população boliviana cresce dinamicamente, enquanto a russa diminui.

A perspectiva russa, segundo a ONU, é de 24 milhões de habitantes a menos em 2100, enquanto a perspectiva da população boliviana nessa data beira um aumento aproximado de 600%. Confira: World Population Prospects 

Alimentação insuficiente e abuso de álcool diminuiu a expectativa de vida
Entrementes, não se entende por que a comunidade internacional ainda aceita a Rússia como uma grande potência econômica.

Só uma esclerosada visão da realidade russa poderia explicar essa crença, talvez influenciada por uma simpatia ideológica atávica ou alguma saudade do socialismo da URSS que continua sob Putin.

Se Moscou influencia hoje o mundo é por causa do fascínio psicológico do sonho da URSS.

Ele se perpetua no Ocidente, ainda governado por partidos socialistas e manipulado por uma mídia cujos grandes títulos vão se fechando um a um porque descolados das respectivas opiniões públicas.

Outro dos poucos índices de grandeza que a Rússia ainda exibe é o mastodôntico aparato de defesa, espionagem, repressão e segurança em que Vladimir Putin fez carreira, e sem o qual o dono do Kremlin não duraria muito.

Fora disso, praticamente nada, martela “El Mundo”. A economia está militarizada, as receitas do país são etéreas como o gás que exporta e se evaporaram com a queda da cotação internacional do petróleo.

Talvez fosse mais apropriado comparar os dados macroeconômicos russos com certas economias africanas em vias de desenvolvimento – embora a Rússia não forneça muitos sinais de crescimento –, armadas até os dentes, com um ditador ferozmente agarrado ao poder e em pé de beligerância contra os vizinhos de etnia (de ideologia, no caso russo) diferente.

O míssil Iskander (SS-26 Stone para a NATO) de curto alcance pode levar cabeças nucleares
O míssil Iskander (SS-26 para a NATO) de curto alcance pode levar cabeças nucleares.
A Rússia gasta desproporcionalmente em armas
Eriçada de nacionalismo anticapitalista e antiocidental, amargurada pelo fracasso da utopia de domínio universal soviético e com uma economia humilhantemente depauperada, a Rússia – que detém 7.000 bombas atômicas – é claramente um perigo, observa “El Mundo”.

Esse é um coquetel de fatores, por certo nada atraente, que explicaria a crença na Rússia-potência: um efeito do medo.

O jeito certo seria reformar a economia para sair da decadência. Mas para o Kremlin isso equivale a reconhecer que não é grande potência.

Se Moscou adequar suas forças armadas às dimensões reais do país, a ideologia oficial e o modelo econômico ainda sovietizado não seriam mais sustentáveis.

Com a cornucópia petrolífera, Vladimir Putin tentou que a Rússia crescesse anualmente 4% a 6%.

Hiper-nacionalista, saudosista da URSS, admirador de Stalin, acuado pela crise econômica, Putin dispõe de 7.000 bombas atômicas
Hiper-nacionalista, saudosista da URSS, admirador de Stalin,
acuado pela crise econômica, Putin dispõe de 7.000 bombas atômicas

A alta cotação internacional do petróleo engrossou as caixas do Estado e alimentou uma fabulosa corrupção em todos os níveis. O país vivia de importados até que a bolha furou.

O Estado distribuia indústrias em concessões e/ou monopólios para uma Nomenklatura de privilegiados oriundos unicamente do entorno de Vladimir Putin, que durarão em função de sua fidelidade ao líder e temerão sempre cair em desgraça.

Com os ingressos rareando, o presidente e sua Nomenklatura seguiram esbanjado para manter cidades e instalações pesadas antieconômicas da era soviética para alimentar altas percentagens de popularidade.

Mas agora a torneira fechou, o petroestado ficou com a roupa do corpo.

Os capitais de estrangeiros e de magnatas putinistas levantaram voo, a moeda nacional espatifou-se, a invasão da Ucrânia cerceou ainda mais as entradas e multiplicou as despesas.

Eis a Rússia, empobrecida, humilhada, acuada e agressiva.

No fim, só resta o nacionalismo saudosista da URSS e 7.000 bombas atômicas.

Para o Ocidente, que acreditou na “queda do comunismo”, sobrou um pesadelo ameaçador.

E ele é chefiado por um coronel formado na KGB, admirador de Stalin e disposto a tudo para restaurar a grandeza material do império dos sovietes.


Vídeo: A Ucrânia comemorou sua independência pressentindo o pior e a Rússia anunciou gigantescos exercícios bélicos





domingo, 10 de setembro de 2017

Beato Teófilo Matulionis: primeiro lituano
mártir do comunismo nos altares

Na cerimônia da beatificação de D. Matulionis em Vilnius, seu quadro é exposto à veneração religiosa dos fiéis.
Na cerimônia da beatificação de D. Matulionis em Vilnius,
seu quadro é exposto à veneração religiosa dos fiéis.
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs





Dezenas de milhares de católicos concentrados no último dia 25 de junho diante da Catedral de Vilnius, capital da Lituânia, assistiram à beatificação de Dom Matulionis, Bispo de Kaisiadorys.

Herói da resistência ao comunismo e mártir, foi assassinado em 1962 pela sanha impiedosa dos esbirros da Moscou soviética.

A cerimônia da beatificação foi dirigida pelo Cardeal Angelo Amato, prefeito da Congregação para as Causas dos Santos.

Figura ímpar da Hierarquia católica do pequeno país báltico, o primeiro a se levantar contra o colosso soviético em 1990, ao proclamar a sua tão desejada independência sem apoio algum das potências ocidentais.

O Beato Teófilo Matulionis é modelo de fidelidade à fé e de santa intransigência em face dos inimigos da Igreja.

Retorno da Lituânia ao redil da Santa Igreja

A Pseudo-Reforma convulsionou os países católicos da Europa, cujas populações tornaram-se majoritariamente protestantes.

Por toda a parte as igrejas foram queimadas, demolidas ou transformadas em lugar do culto herético.

Na Lituânia, a igreja de Siluva, pequena aldeia ao norte do país, não escapou ao ódio demolidor dos protestantes e foi arrasada.

Quadro representando a aparição de Nossa Senhora em Siluva
Quadro da aparição de Nossa Senhora em Siluva
O seu pároco, contudo, conseguiu esconder os paramentos e os vasos sagrados numa arca, bem como os documentos relativos à propriedade da igreja.

Passaram-se os anos e a poeira do esquecimento baixou sobre a memória do povo. Em 1608 já quase ninguém se recordava da igrejinha de Siluva.

Mas, no dia 8 de setembro daquele ano, dá-se um fato extraordinário. O Céu intervém e Nossa Senhora aparece a dois pastorzinhos sobre uma pedra no campo, no mesmo local onde se situava a igreja destruída cerca de meio século antes. dirigindo-se a eles, a Mãe de Deus, muito triste, se queixou:

”Este local, onde meu Filho era outrora adorado, transformou-se agora num campo onde pastam vacas e ovelhas”.

Pediu-lhes que rezassem e fizessem penitência para que a Lituânia voltasse ao redil da Santa Igreja.

Em certa medida, os rogos de Nossa Senhora em Siluva foram atendidos e a Lituânia voltou a ser de novo católica e profundamente devota da Mãe de Deus.

Por isso é chamada “Terra de Maria”. Nem os 123 anos de domínio da Rússia czarista, nem meio século sob o tacão da bota soviética conseguiram extinguir sua fé católica.

Lituânia subjugada pelo regime comunista

O reino unido polaco-lituano foi desmembrado e repartido entre a Áustria, a Prússia e a Rússia.

De 1795 a 1917 os russos não pouparam esforços no sentido de “reeducar” a Lituânia: eliminação da Igreja Católica e a introdução da assim chamada “igreja ortodoxa”; substituição da língua lituana pelo russo; troca das autoridades regionais e locais por funcionários de Moscou.

Tais medidas produziriam grande insatisfação popular, expressa nos dois grandes levantamentos de 1830 e 1863, ambos abafados no sangue.

Não obstante, a Religião católica permaneceu viva e a moral da Igreja continuou a ser ensinada por sacerdotes que exerciam na clandestinidade o seu ministério.

A língua lituana sobreviveu apenas nos lares, onde era falada e lida em livros introduzidos no país por vendedores ambulantes.

A queda do Czar, como consequência da revolução comunista em 1917, favoreceu o movimento em prol da independência da Lituânia.

Era o momento propício para ela se desligar de Moscou. O que tornou realidade em fevereiro de 1918, quando foi proclamada a sua independência.

D. Teófilo Matulionis: alta consciência da dignidade episcopal ufania desafiante face ao anticristo comunista.
D. Matulionis: alta consciência da dignidade episcopal
ufania desafiante face ao anticristo comunista.
Em agosto de 1939 a Alemanha nazista e a Rússia Soviética assinaram o pacto de não agressão Ribbentrop-Molotov, contendo cláusulas secretas que repartia entre as duas potências áreas de sua influência na Europa do Leste.

A Polônia tombava sob o jugo alemão, enquanto a Lituânia, a Letônia e a Estônia tornavam-se “zonas de interesse soviético”.

Nove dias depois da assinatura do Pacto, em 1º de setembro, a Alemanha invadiu a Polônia, enquanto a Rússia, por sua vez, avançou sobre a Finlândia e anexou os países bálticos.

Pouco depois a Lituânia seria ocupada por tropas nazistas, quando a Alemanha declarou guerra à Rússia.

Antes mesmo do fim da II Guerra Mundial, a Lituânia foi submetida novamente ao jugo soviético.

Dezenas de milhares de lituanos — praticamente toda a elite do país — foram enviados para a Sibéria.

E milhares de resistentes se embrenharam nas florestas e morreram combatendo os invasores comunistas. A implacável perseguição religiosa excluiu os católicos da vida pública do país.

A pobreza e a miséria não pouparam senão os membros da Nomenklatura.

A espionagem generalizada criou um clima de desconfiança até mesmo no interior das famílias. O descontentamento cresceu.

Quando a inconformidade atingiu um auge, a Lituânia se levantou como um só homem e, no dia 11 de março de 1990, proclamou seu desligamento da União Soviética.

”O senhor é um mártir”

Foi nesse contexto histórico — que abrange um período de quase duzentos anos — de resistência, primeiro às tentativas de russificação e depois de bolchevização do país, que Dom Teófilo Matulionis nasceu e viveu, lutou e morreu.

Ele nasceu no dia 22 de junho de 1873 em Kudoriskis, uma aldeia no sul da Lituânia. Frequentou o ginásio russo e estudou no seminário da Arquidiocese de Mohilev, em São Petersburgo.

Ordenado sacerdote em 1900, D. Klopotovski, arcebispo metropolita de Mohilev, designou-o para uma paróquia na Letônia.

O Pe. Matulionis tornou-se também pároco da igreja do Sagrado Coração de Jesus, em Bikava.

A partir de novembro de 1910 exerceu o seu múnus como vigário na igreja de Santa Catarina, na prestigiosa Nevsky Prospekt, na antiga capital russa.

Alí ele presenciou e sentiu os efeitos dos horrores perpetrados pela revolução comunista de 1917 e a perseguição à Igreja.

Em 1918 o arcebispo D. Ropp nomeou-o pároco da igreja do Sagrado Coração de Jesus, mais além da Porta do Neva.

D. Matulionis nas condições humilhantes da prisão comunista conservava toda a dignidade de um bispo da Santa Igreja
D. Matulionis nas condições humilhantes da prisão comunista
conservava toda a dignidade de um bispo da Santa Igreja
Em 1922 recrudesce a perseguição à Igreja católica. Lênin urgia o fim da resistência da Igreja a seus decretos e promoveu o confisco de seus bens, a começar pelos templos, que depois deveriam ser alugados aos fiéis.

No dia 7 de dezembro de 1922 foi fechada a igreja do Sagrado Coração de Jesus, cujo pároco era o Pe. Matulionis.

Em março do ano seguinte o Pe. Matulionis foi preso, juntamente com outros sacerdotes, processado e condenado a três anos de prisão, dos quais cumpriu dois anos e quinze dias.

Em 1929 ele foi secretamente sagrado bispo por D. Anton Malecki para a região de São Petersburgo, tendo por missão dirigir a Igreja local.

No mesmo ano foi novamente preso e desterrado para o campo de trabalhos forçados nas ilhas Solovetsky, situadas no Báltico, ao norte da Rússia.

Libertado em fins de 1933, por ocasião de uma troca de prisioneiros entre a República Independente da Lituânia e a Rússia soviética, foi recebido apoteoticamente em Kaunas, onde se estabeleceu.

No ano seguinte Dom Matulionis visitou o Vaticano, sendo recebido por Pio XI.

Quando ele se ajoelhou diante do Sumo Pontífice para lhe oscular o anel e pedir sua bênção, Pio XI o levantou e, ajoelhou-se diante dele, disse: ”O senhor é um mártir. Dê-me primeiramente a sua bênção”.

Vigiado pelo serviço secreto russo

Em 1943 Pio XII nomeou-o bispo de Kaisiadorys. Apesar das ameaças e intimidações, o intrépido bispo nunca deixou de criticar a perseguição que os regimes nazista e comunista faziam contra a Igreja e a moral católica.

Em particular, apontava a dissolução dos costumes, o amor livre e a prática abominável do aborto, crime monstruoso por sacrificar vidas inocentes, além de impedir o crescimento da população.

No ano seguinte, com o recuo das forças de ocupação nazistas, os russos soviéticos se instalaram novamente na Lituânia.

Odiado pelos comunistas, Dom Matulionis foi preso pela terceira vez e enviado para o cárcere de Vladimir.

Posteriormente deportaram-no para a Sibéria, onde trabalhou nos pântanos, arrastando troncos para a construção de estradas.

Com a saúde deteriorada, sua libertação ocorreu somente 10 anos depois, em abril de 1956. Retornando à Lituânia, Dom Matulionis não pôde contudo exercer seu múnus episcopal, pois foi proibido de residir em sua diocese.

Próximo aos limites desta, na cidade termal de Birstonas, teve que viver em prisão domiciliar, sendo vigiado pelo serviço secreto russo.

Comunistas o executam por ódio à fé

Solene com a ufania de um cruzado que combateu o bom combate... e venceu!
Solene com a ufania de um cruzado que combateu o bom combate... e venceu!
Dom Teófilo Matulionis passou 16 anos encarcerado nas enxovias soviéticas e perseguido a vida inteira pelos comunistas.

Abateram-se sobre ele sofrimentos de toda espécie, físicos e morais. Calúnias e insultos, doenças e fome nas prisões.

Entretanto, o que mais lhe atormentou ao longo das intérminas perseguições de que foi objeto não foi a violência física, mas a profunda dor moral e espiritual pelos contínuos entraves ao seu apostolado visando arrancar almas do pecado e conquistá-las para o Céu.

Mesmo antes de ouvir falar das aparições de Nossa Senhora em Fátima e de conhecer-lhe a Mensagem, o sentido de seu apostolado era consoante com os pedidos da “Virgem mais branca que o sol”.

Fustigava o pecado do aborto, a prática do amor livre, o abandono quase geral da observância dos Mandamentos.

Pregava incansavelmente a necessidade da conversão e da penitência, estimulava a devoção aos Sagrados Coração de Jesus e de Maria e tinha o foco de sua atenção voltado para a conversão da Rússia.

Em fevereiro de 1962 foi-lhe concedido o título pessoal de Arcebispo. Os últimos meses da vida de Dom Matulionis transcorreram na casa paroquial de Seduva, ao norte do país.

Foi ali que agentes comunistas o espancaram barbaramente na véspera de sua morte, causada por uma injeção letal aplicada depois por uma enfermeira da KGB.

Morto ”in odium fidei”, Dom Matulionis é o primeiro mártir do regime soviético a ser elevado à honra dos altares.


Fotografia do grande bispo lituano


“No decurso de toda a minha existência, poucas foram as fisionomias que encontrei tão profundas e tão lúcidas, e ao mesmo tempo tão impregnadas de bondade”

Prefaciando a edição brasileira do livro do Pe. Pranas Gaida, Dom Teófilo Matulionis – Bispo, prisioneiro e mártir do comunismo(Artpress, São Paulo, 1991 — publicado por iniciativa do Revmo. Pe. Pranas Gavenas, SDB), Plinio Corrêa de Oliveira comenta assim a figura desse grande herói da Fé:

“Sempre me pareceu algum tanto desordenado — salvo circunstâncias muito especiais — ver antes as fotos que ilustram uma obra, e só depois lhe ler o texto.

“Entretanto, foi precisamente o que fiz, logo que tive em mãos o livro do Pe. Pranas Gaida.

“Deitei os olhos sobre a capa e me deparei com uma fotografia do grande bispo lituano. E, de imediato, sua fisionomia me causou profunda impressão.

“Realmente, no decurso de toda a minha existência, poucas foram as fisionomias que encontrei tão profundas e tão lúcidas, e ao mesmo tempo tão impregnadas de bondade, quanto a do falecido bispo de Kaisiadorys, na Lituânia.

“Passei, então, com avidez, à leitura do texto conciso, denso e atraente da narração de sua vida. No início, dois sentimentos me dividiam.

“Um era o desejo de conhecer pelo menos os principais lances da história de Dom Matulionis, ao longo dos quais lhe fora dado formar sua nobre e resoluta personalidade.

“O outro era o receio de encontrar no livro algo que, de leve embora, deslustrasse, por pouco que fosse, sua insigne personalidade.

“Porém, antes de chegar ao termo da narração de sua dura e heroica existência, já não temi encontrar qualquer decepção.

“Pois não tardei em me certificar de que a alma do grande bispo e mártir era feita de uma só peça.

“E que, assim, ou se mantinha de pé em meio ao fragor de todas as lutas, ou, se cambaleasse e viesse a perder o equilíbrio, cairia inteira ao chão.

“E se me tornara a cada passo mais provável que Dom Matulionis conservara sua alma íntegra e pura até o glorioso dia em que, atendendo ao chamado de Deus, se evolou desta Terra para o Céu.

Soldados lituanos portam a urna com os restos do santo mártir Dom Teófilo Matulionis
Soldados lituanos portam a urna com os restos do santo mártir D. Teófilo Matulionis
“O bispo-mártir me faz lembrar o célebre dístico que glorifica a Santa Cruz na qual o Filho de Deus, com o seu sacrifício redentor, abriu para os homens as portas do Céu: Stat Crux dum volvitur orbis. Enquanto a Terra gira sem cessar, a cruz se ergue imóvel.

“Esse dístico lembra a vida de verdadeiro Pastor, de Dom Matulionis.

“E enquanto em torno dele e de sua atuação, de sua diocese e de sua pátria queridas, nos acontecimentos do cenário político internacional o nazismo e o comunismo dançavam incessantemente sua farândola criminosa e macabra, Dom Matulionis se mantinha altaneiro e sempre fiel à Igreja de Cristo, cuja Santa Cruz sua destra empunhou e levantou bem alto, desde os primeiros passos da vida até os últimos.

“Como seminarista, depois pároco e por fim bispo — quer sob o regime czarista, quer depois sob a férula cruel do regime comunista que o perseguiu sem tréguas nem compaixão e o arrastou mais de uma vez ao cárcere, quer nos esplendores dos templos e da liturgia católica, quer enfim na magnificência dos Paços apostólicos do Vaticano, nos quais visitou o Papa Pio XI, então reinante —, Dom Matulionis foi sempre o mesmo.

“Como o mesmo continua nos páramos celestes em que, aos pés da Santíssima Virgem e de seu Divino Filho, estará rezando pelos compatriotas existentes na Lituânia ou esparsos pelo mundo.”

(Autor: Renato Murta de Vasconcelos, ABIM).


domingo, 3 de setembro de 2017

Putin manda silenciar crimes de Stalin

Em 1997, o historiador Yury Dmitrieyev localizou o túmulo de massa de Sandarmokh, Carélia, onde 9500 prisioneiros foram mortos por ordem de Stalin
Em 1997, Yury Dmitrieyev localizou o túmulo de massa de Sandarmokh, Carélia,
onde perto de 9.000 prisioneiros foram assassinados por ordem de Stalin
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
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Yury Dmitrieyev, líder de Memorial, a mais antiga organização de defesa dos direitos humanos da Rússia, dedicou décadas de sua vida a encontrar os lugares onde a polícia política de Stalin, a NKVD, executou milhares de opositores durante o Grande Terror da década de 1930.

Mas isso não agradou Vladimir Putin, ex-coronel da KGB, continuadora da NKVD, que mandou prendê-lo e processá-lo com acusações pelo menos duvidosas, escreveu “Slate”.

No dia 5 de agosto foi o 20º aniversário da descoberta do local da carnificina de Sandormokh, no noroeste da Rússia. Ali foi localizado um dos maiores túmulos coletivos deixados pela URSS, com os restos de mais de 6.000 prisioneiros assassinados no Grande Terror dos anos 1930.

Yury Dmitrieyev foi o primeiro a identificar esse imenso cemitério clandestino em 1997. Porém, não poderá assistir à comemoração do 20º aniversário da descoberta.

Em dezembro de 2016 ele foi encarcerado em circunstâncias estranhas, segundo noticiou o jornal britânico “The Guardian”.