domingo, 13 de agosto de 2017

Exemplo ucraniano inspira resistência venezuelana

Afinidade das situações é muito grande
Afinidade das situações é muito grande
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs





O documentário Winter on fire foi apresentado e discutido em várias universidades venezuelanas, públicas e privadas, provocando grande impacto entre os estudantes, hoje figuras centrais das marchas opositoras ao governo de Nicolás Maduro, informou “O Globo”.

Segundo declarou ao “Globo” Marcelino Bisbal, professor da Universidade Católica Andrés Bello (UCAB), os estudantes venezuelanos ficaram entusiasmados com o documentário.

Por quê? “Porque o exemplo da Ucrânia mostra que é possível mudar um país fazendo grandes esforços, como estão fazendo todos os venezuelanos”.

Esses grandes esforços envolvem o derramamento abundante de sangue – mais de 100 assassinados pelos esbirros chavistas – e um combate duríssimo no dia-a-dia nas ruas e praças do país

“Aqui já se fala no efeito Ucrânia, pela penetração deste documentário não somente nas universidades, mas também nos bairros, através de associações civis” — disse o professor da UCAB.

“Os jovens se sentem identificados com o exemplo ucraniano, porque aqui também eles são o motor da rebelião”.

Nos escudos caseiros venezuelanos a Cruz de São Jorge e Nossa Senhora de Coromoto.
Nos escudos caseiros venezuelanos:
a Cruz de São Jorge e Nossa Senhora de Coromoto.
Assim como na Ucrânia, manifestantes passaram a usar escudos improvisados para se defenderem da repressão policial nos protestos, como na Praça Maidan de Kiev.

Placas de madeira e aço, barris de plástico e metal, e até mesmo partes de antenas parabólicas e tampas de bueiros proliferam nas manifestações, quase sempre trazendo as cores da bandeira nacional ou mensagens contra o governo.

Também se destaca a Cruz de São Jorge, muito usada em Kiev. Um vídeo viral nas redes sociais mostra uma moça montando seu escudo, enquanto Maduro aparece na TV fazendo suas invectivas anticapitalistas e insultos à oposição.

Por fim, a jovem sai à rua de sua pobre casa e vai juntar-se a outros que acabam de fazer seu escudo.

“Os escudos não detêm os tiros, mas nos protegem do gás lacrimogêneo, das balas de borracha e pedradas”, informou à Reuters Brian Suárez, estudante de Direito, carregando um escudo com a imagem do presidente sob a mira de um rifle.

Há uma coincidência curiosa. Procurando fotos desses resistentes venezuelanos, achei algumas de jovens na Praça Maidan em 2014, com cartazes em que se identificavam com as marchas pacíficas da Venezuela e faziam explícita menção ao país sul-americano.

Que intuição lhes fazia antever que nos dois países tão distantes entre si, uns e outros se opunham ao mesmo inimigo: o comunismo metamorfoseado?

Em 2014, na Praça Maidan os manifestantes ucranianos pela liberdade apoiavam seus homólogos venezuelanos
Em 2014, na Praça Maidan os manifestantes ucranianos pela liberdade
apoiavam seus homólogos venezuelanos
Em 2014, enquanto os ucranianos lutavam pela sua independência na Praça Maidan, os venezuelanos faziam o mesmo em seu país.

Os ditadores Vladimir Putin, Recep Erdogan, Bashar Assad, Nicolás Maduro e Robert Mugabe inventaram então a existência de uma grande conspiração mundial do Ocidente contra eles, noticiou “El País” de Madri.

Em ambos os casos, aqueles jovens lutavam corajosamente e em desigualdade de condições para se desenvencilhar de uma espécie de demônio ou maldição.

Como que tentavam remir seus países, mesmo pagando um alto preço em sangue para atrair uma bênção portadora de um futuro melhor intuído com esperança.


Vídeo: Exemplo ucraniano inspira resistência venezuelana










domingo, 6 de agosto de 2017

Estátuas de Lenine vão parar em lixões e depósitos

A cabeça do monumento de Dnipropetrovsk foi doada ao Museu Histórico Nacional, mas acabou posta de lado
A cabeça do monumento de Dnipropetrovsk foi doada ao Museu Histórico Nacional,
mas acabou posta de lado
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs





O fotógrafo suíço Niels Ackermann palmeou a Ucrânia durante três anos juntamente com o jornalista francês Sébastien Gobert de “Libération”.

Eles foram registrar que fim tiveram as inumeráveis estátuas de Lenine hoje desaparecidas dos locais públicos.

Sabia-se que elas haviam sido derrubadas durante o reerguimento do povo ucraniano contra o domínio russo representado pelo regime de Yanukovich (2010-2014).

Mas essa atitude em face das estátuas do tirano acentuou-se ainda mais após aplicação da lei de “desovietização”, de maio de 2015.

Pareceu uma viagem aos porões artísticos do inferno. Os resultados ficaram compilados no álbum “Procurando Lenine” (Looking for Lenin, ed. Noir sur Blanc, Montricher, Suíça, 2017, 176 p.).

Mas o álbum acabou mexendo em algo que ia além do registro fotográfico.

Ele permitiu narrar de modo diferente a história recente da Ucrânia, as relações de força ditatorial contra o povo, as decepções dos iludidos com o comunismo e as nostalgias da era soviética que ainda subsistem como fantasmas de uma casa assombrada.

O fotógrafo ficou pasmo ao constatar que cada ucraniano tem alguma coisa a contar sobre Lenine e a ação comunista com que ele tentou esmagar o país, massacrando milhões, expropriando as propriedades particulares, fechando a Igreja Católica e tentando fazer desaparecer por completo a alma, a cultura e a identidade nacional ucraniana.

Mães de família, professores, policiais, políticos, operários, camponeses, todos têm uma história de dor para contar, até o momento em que não mais havia na sua aldeia uma estátua do assassino de massa russo.

Os ucranianos deixaram bem claro o que pensavam da emblemática estátua do ditador em Kiev
Os ucranianos deixaram bem claro o que pensavam
da emblemática estátua do ditador em Kiev
Niels conta que as derrubadas de imagens de Lenine começaram antes mesmo da queda de Yanukovich. Uma delas chegou a ser jogada por terra na Ucrânia ocidental antes da extinção da URSS.

A primeira onda de desmantelamentos do odiado líder comunista se deu na década de 1990.

Após a Declaração de Independência da Ucrânia – em 24 de agosto de 1991, a qual foi ratificada em plebiscito por 90% da população –, em quatro ou cinco anos foi suprimida a metade das 5.500 estátuas que a URSS havia espalhado por tudo quanto é canto.

Em 8 de dezembro de 2013 começou em Kiev a leninopad [“queda dos Lenines”], quando uma estátua principal do tirano comunista, no centro da capital, foi desatarraxada e estraçalhada, caracterizando o início da revolução libertadora.

O povo se jogou encima dela e a estilhaçou com golpes de marreta, picas e paus, com uma ferocidade que fez lembrar os alemães derrubando o Muro de Berlim.

Não era uma revanche contra o homem Lenine, mas contra o regime que ele fundou e a estátua encarnou, contra o passado soviético e a política atual de Putin, explicou o fotógrafo.

Um site anunciava uma a uma as localidades em que “os Lenines” iam sendo arrancados, e a onda crescia em velocidade.

Das aldeias e regiões rurais até as grandes cidades, todos corriam para se livrarem daqueles demônios de pedra ou aço, enquanto as forças policiais mudavam de posição e acompanhavam o movimento patriótico.

A terceira fase foi a da descomunistização oficial, iniciada em maio de 2015. Além dos “Lenines”, todos os símbolos comunistas – nomes de cidades e de ruas, estátuas de outros líderes comunistas – foram sendo suprimidos e, sempre que possível, recuperados os antigos nomes.

Pichada e abandonada em Slovyansk
Pichada e abandonada em Slovyansk
O mapa dos “Lenines” execrados recobre todo o território ucraniano.

Um jovem de Kharkiv, segunda maior cidade do país, descreve o que sentiam inúmeros corações: “Eu me tornei homem naquela tarde, fazendo cair a Lenine”.

Nas cidades do Leste, os separatistas pagos por Moscou ainda se reúnem ao pé de sua estátua.

Para os habitantes de Kharkiv, derrubar o símbolo do mal foi uma questão de guerra ou de paz. Para os jovens, foi como arrancar as próprias raízes do mal, destruindo seu insolente monumento como condição para uma ordem pacífica.

Os restos das estátuas – recobertos de grafites, com as cores ucranianas e increpações a Putin, com quem eles são identificados – acabaram em barracões, lixões públicos, galpões abandonados, ou com algum nostálgico marxista.

No momento da revolução libertadora, os ucranianos se regozijaram liquidando o símbolo de todos os horrores, a encarnação da política estrangeira putinista.

Hoje é lixo, e o álbum retrata isso.




Vídeo: Restos das estátuas de Lenine vão parar em lixões e depósitos




Vídeo: "Adeus, Lenine", a derrubada ao vivo e a cores da maior do mundo em Kharkiv