domingo, 19 de novembro de 2017

Acidente revela qualidade do material bélico russo

Destaques do acidente com o helicóptero Ka-52 em exibição na Zapad 2017
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs






A Rússia realizou em setembro os exercícios militares Zapad 2017 (Oeste 2010).

Eles suscitaram preocupação no Ocidente pelo número dos efetivos oficialmente anunciados (12.700 militares, dos quais 7.200 bielorrussos e 5.500 russos) e pelo volume do equipamento usado (cerca de 70 aviões e helicópteros, 250 carros de combate, 200 sistemas de artilharia, lança-foguetes múltiplos e morteiros, e 10 navios de guerra).

Segundo os observadores ocidentais, os números teriam sido ainda maiores, registrou o jornal “El Mundo”, de Madri.

O governo russo acreditou jornalistas nacionais e estrangeiros para contemplar seu poderio militar – a qualidade de seu armamento e o grau de treinamento de seus soldados.

E preparou para esse fim uma demonstração em que modernos helicópteros modelo Ka-52 atingiriam alvos predispostos.

Porém, ao serem disparados, os foguetes saíram em direção dos espectadores, segundo informou o portal de noticias '66.ru', que publicou um vídeo gravado por uma fonte que guardou o anonimato.

Tupolev-22M acidentado durante os exercícios Zapad 2017
Tupolev-22M acidentado durante os exercícios Zapad 2017
“Pelo menos dois carros pegaram fogo e duas pessoas ficaram gravemente feridas e agora estão hospitalizadas”, disse a fonte.

O Ministério de Defesa russo confirmou o fato ao jornal ‘Kommersant’ e disse que uma comissão investigará o incidente, mas negou que houvesse feridos.

“O sistema de fixação do alvo fez uma captura errônea do objetivo. Um dos caminhões sem ocupantes foi danificado”, disse o serviço de imprensa do Distrito Militar Oeste. De fato, ele foi totalmente destruído.

O Exército russo não esclarece onde nem quando isso aconteceu, nem mesmo quantas nem quais são as vítimas, provavelmente jornalistas.

Segundo o site ‘66.ru’, o acidente se deu em Luzhsky, perto de São Petersburgo, tendo Vladimir Putin visitado o local poucos dias depois.

O ocorrido revela como são limitadas as qualidades do exército que ainda usa bandeiras com a foice e o martelo para enfrentar eventuais antagonistas ocidentais.

Revela também a necessidade da Rússia de aplicar técnicas de guerra híbrida, psicológica e de informação para desmoralizar e caotizar os países que ela considera seus adversários e futuros escravos.

Guerra à qual os promotores da Revolução Cultural imoral e blasfema no Ocidente prestam serviços superiores a qualquer foguete ou arma militar, por mais poderosa que esta pretenda ser.



Vídeo do helicóptero russo acertando nos jornalistas



domingo, 12 de novembro de 2017

Católicos russos gemem
sob a nova aliança Moscou-Vaticano

Amizades na Rússia valeram ao Cardeal Parolin a condição de 'papabile'. Católicos russos e ucranianos gemem vendo o pastor estreitando a mão do lobo.
Amizades na Rússia valeram ao Cardeal Parolin a condição de 'papabile'.
Católicos russos e ucranianos gemem vendo o pastor estreitando a mão do lobo.
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
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política internacional,
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Os católicos russos acenam de sua sofrida e heroica situação e exortam Ocidente a não esquecer a tragédia das vítimas do comunismo, noticiou “Religião Digital”.

A ocasião é apropriada: o centenário da Revolução Bolchevista, acontecida em 7 de novembro de 1917.

O secretário-geral da Conferência dos Bispos Católicos da Federação Russa, monsenhor Igor Kovalevsky, fez um apelo aos cristãos ocidentais para manterem viva a lembrança dos russos que deram sua vida sob a perseguição do regime comunista da União Soviética.

Os cruéis expurgos anticristãos e o envio dos fiéis aos campos de trabalhos forçados – sinônimos muitas vezes de morte lenta em condições miseráveis – visavam oficialmente a uma “reeducação” para o materialismo.

Eles constituíram um dos piores e maiores sistemas de perseguição e extermínio da História.

“Os sofrimentos nas prisões soviéticas e nos campos de trabalho continuam sendo um problema para toda a sociedade”, afirmou Mons. Kovalevsky ao jornal católico inglês “The Tablet”.

“Foram construídos templos em memória dos que morreram pela fé, que merecem ser comparados aos mártires dos primeiros séculos do Cristianismo”.

Segundo Mons. Kovalevsky, as histórias do martírio dos cristãos sob a ditadura soviética são universalmente conhecidas.

Mas, acrescentamos nós, se elas tivessem sido mais difundidas no Ocidente a opinião pública católica teria sido alertada, e muitas aventuras inspiradas no ideário comunista, como as do PT, talvez nunca tivessem acontecido.

Mons. Kovalevsky comentou que durante o “Grande Expurgo” da era de Stalin, modelo preferido de Vladimir Putin, 442 sacerdotes católicos foram martirizados, e mais de 100.000 representantes religiosos cismáticos ditos “ortodoxos” assassinados.

Dignitários da Igreja Católica russa processados pelo Tribunal Revolucionário de Moscou. Fonte: L'Illustration
Dignitários da Igreja Católica russa processados pelo Tribunal Revolucionário de Moscou.
Fonte: L'Illustration
Além desses martírios, os militantes comunistas destruíram e/ou profanaram mais de mil igrejas e capelas católicas, empregando-as depois sacrilegamente para os usos mais indignos e insultantes ao seu caráter sagrado.

Mais de 900 religiosos, freiras e leigos sacrificaram suas vidas para não apostatarem da fé em Jesus Cristo e na Igreja Católica.

Os extermínios provocados pela Revolução Comunista de 1917 provocaram a morte de aproximadamente 21 milhões de seres humanos, entre crimes sanguinários e “fomes do terror”, como o Holodomor na Ucrânia.

Por volta de 1930, mais de 200 mil pessoas achavam-se recluídas em campos de concentração, verdadeiros campos de extermínio.

A cifra aumentou para um milhão antes da II Guerra Mundial e para perto de dois milhões e meio no inicio dos anos cinquenta.

Os documentos da burocracia comunista dos campos de trabalho forçado registram oficialmente mais de um milhão de vidas extintas pela ideologia igualitária.

O apelo alcançou ressonâncias patéticas no Ocidente, onde a diplomacia vaticana se volta cada vez mais simpaticamente para o regime de Vladimir Putin, herdeiro atualizado do criminoso regime soviético.

E, num contexto mundial alarmante, a política vaticana vai rompendo o bom relacionamento com os EUA, a única superpotência capaz de bloquear qualquer uma das desordens subversivas favorecidas por Putin no mundo.

O mesmo Vaticano reconhece que a sombra ameaçadora de uma “terceira guerra mundial parcelada” paira sobre a humanidade.

A mudança de 180º nos rumos da diplomacia vaticana foi detalhada também em “La Nación” de Buenos Aires pela jornalista Elisabetta Piqué, biógrafa e ativa participante do seleto núcleo de “amigos argentinos” do pontífice Francisco I.

'Nova aliança Vaticano-Moscou' preanuncia dias difíceis para os fiéis católicos
'Nova aliança Vaticano-Moscou' preanuncia dias difíceis para os fiéis católicos
As simpatias do pontificado do Papa Francisco se voltam também para a ditadura da China comunista de Xi Jinping, engajada em pérfida e ativa perseguição aos católicos não comunistas daquele grande país.

A nova inclinação diplomática do Vaticano mostra afinidades com a política de acolhida aos invasores islâmicos estimulada pela chanceler alemã Angela Merkel, que ameaça extinguir pela raiz a substância cristã da Europa.

Angela Merkel é o chefe de governo que mais visitou o Papa, mais até que Vladimir Putin.

A nova diplomacia vaticana pró-Kremlin ficou chancelada com a visita de quatro dias do Cardeal Pietro Parolin à Rússia. Ele é o Secretário de Estado da Santa Sé e o mais importante colaborador do Papa Francisco.

Na Rússia, o Cardeal Parolin se reuniu não apenas com o patriarca Kirill – líder do Patriarcado cismático de Moscou formado na polícia política soviética KGB –, mas também com o próprio presidente Vladimir Putin e seu chanceler, Serguei Lavrov.

De retorno a Roma após três dias de diversos acordos em Moscou, o Cardeal elogiou a Rússia na Rádio Vaticana.

Na mesma ocasião, aproveitou para manifestar o afastamento dos EUA presidido por Donald Trump e lamentar que o país já não seguisse as linhas – fortemente denunciadas pelos meios conservadores e religiosos americanos – do esquerdista Barack Obama.

Segundo Luigi Accattoli, veterano vaticanista do “Corriere della Sera”, o objetivo da missão de Parolin no Kremlin foi “tecer uma meia aliança com a Rússia de Putin num momento em que o tabuleiro mundial aparece convulsionado”, acrescentou Piqué.

A efetivação dessa aliança teria valido ao Cardeal a condição de “papabile” – em termos mais modernos, ele teria sido pago com a “pole position” na corrida pela sucessão de Francisco I.

Os católicos russos assistiram com angustia aos abraços do representante vaticano com os perseguidores instalados no Kremlin e no Patriarcado de Moscou.

“Houve claramente um aquecimento nas relações, mas não há uma mudança na política interna e externa russa”, disse Marcin Przeciszewski, diretor da Agencia Informativa Católica na vizinha Polônia, citado pelo National Catholic Reporter.

Cardeal Parolin com bispo cismático Hilarion em Moscou. Presentes e sorrisos para uma peça-chave da farisaica perseguição.
Cardeal Parolin com bispo cismático Hilarion em Moscou.
Presentes e sorrisos para uma peça-chave da farisaica perseguição anticatólica.
Também os greco-católicos da Ucrânia foram atacados pelos cismáticos russos enquanto o Patriarca de Moscou trocava sorrisos com o Cardeal Parolin.

O Patriarcado de Moscou reclama que esses católicos devem ser entregues à jurisdição russa cismática, perspectiva iníqua que o Vaticano não afasta.

Segundo o “Annuario Pontificio” do Vaticano, os católicos russos somam 773.000 fiéis – aproximadamente 0,5% da população russa – e estão muito dispersos no território. Há apenas uma arquidiocese em Moscou e dioceses em Saratov, Irkutsk e Novosibirsk.

Mons. Igor Kovalevsky, secretário-geral da Conferência Episcopal Russa, lembrou que com essa visita não houve progressos reais, que os hierarcas católicos continuam negando licença para se visitar o clero, e que as propriedades da Igreja sequestradas pelos soviéticos não estão sendo restituídas.

Mons. Kovalevsky também alertou que os católicos estão sofrendo ameaças de “novas limitações de sua liberdade religiosa” por parte do governo.

Em comunicado, o Vaticano mostrou-se sensibilizado com o clima de cordialidade no encontro com Putin.

Parolin admitiu que a restituição das propriedades católicas é “um problema muito sério e urgente”. Mas a Igreja ainda está aguardando passos concretos. As promessas de devolução não estão sendo cumpridas.

O Secretário de Estado dedicou apenas um encontro aos católicos que padecem essa penosa situação, na catedral de Moscou dedicada à Imaculada Conceição.

Segundo Mons. Kovalevsky, não se trata de uma “disputa trivial por propriedades”, mas de uma “planificada política das autoridades de Moscou para desrespeitar os direitos do fiéis católicos”.



A propaganda putinista explorou intensamente a visita do Cardeal Parolin




O Patriarcado de Moscou quer engolir todos os católicos eslavos e recebeu com agrado a visita do Cardeal Parolin




Ucrânia teme a opressão religiosa vinda da Rússia




Os Grandes Expurgos



Os crimes que a Ostpolitik finge ignorar




A Igreja Perseguida – Ataques soviéticos contra as igrejas




A tentativa de extinção da religião na União de Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS)





domingo, 5 de novembro de 2017

Moscou articula separatismos
para imperar sobre um Ocidente dividido

Em reunião de 2015 no Kremlin, agitador separatista catalão anuncia próxima independência
Em reunião de 2015 no Kremlin, agitador separatista catalão
anuncia próxima independência
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
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continuação do post anterior: Enviado de Putin foi estimular o separatismo na Catalunha



O partido político Ciudadanos registrou no Congresso de Madri uma demanda ao governo, e em especial ao Ministério de Relações Exteriores, de explicações pela ingerência russa no frustrado referendo de independência catalã e pelas manobras do embaixador russo em Madri.

O deputado Fernando Maura considerou existirem suficientes indícios na mídia de Moscou para suspeitar que a Rússia estivesse manipulando o problema da Catalunha para abalar a Europa, escreveu “El País”.

A manobra russa embutiria “a intenção de acabar com as sanções que lhe foram impostas pela anexação da Crimeia e por sua intervenção no Leste da Ucrânia".

A demanda também menciona a duplicidade patenteada nos meios pertencentes ao governo russo e na posição oficial dos dirigentes do Kremlin.

A crise de Catalunha motivou jornalistas a pesquisarem os arquivos de seus próprios jornais e os achados foram surpreendentes.

Há poucos anos, Moscou vem financiando uma conferência internacional promovida por um fantasmático Movimento Antiglobalização da Rússia (MAR).

Essa entidade-biombo reuniu em 2016, num luxuoso hotel moscovita, uma galáxia de grupos separatistas, entre os quais figurava Solidaritat Catalana, representado pelo seu secretário J. Enric Folch Vila.

Folch Vila encarregou-se de informar aos presentes sobre os planos para o referendo pela independência da Catalunha e anunciou que esperava voltar em 2017 “falando em nome da Catalunha, país independente”.

A conferência foi financiada em 30% com dinheiro estatal de um total de 3,5 milhões de rublos, confirmou Alexander Iónov, chefe do Movimento Antiglobalista, citado por “El País”.

No Kremlin, o 'Yes California' reafirmou a meta de separar o Estado dos EUA
No Kremlin, o 'Yes California' reafirmou a meta de separar o Estado dos EUA
Em Moscou não havia só catalães. Estava também representado o Movimento Nacionalista do Texas, liderado por Nate Smith, que reivindicou o “direito à autodeterminação” desse território norte-americano.

Smith defendeu que os territórios secessionistas nos países ocidentais obtenham a independência pela “via pacífica”.

Compareceram ainda os movimentos Yes California Independence Campaign (“Calexit”); o Estado Nacional Soberano de Borinken, que se apresenta como uma “estrutura de cidadãos que tomou a direção de Porto Rico de maneira paralela ao governo colonial” americano ; a Lega Nord de Lombardia (Itália); o Frente Polisario; o Partido Democrático do Líbano; o representante do território do Alto Karabak (enclave armênio no Azerbaijão); o Sinn Fein (Irlanda) e a República do Transdniéster, território da Moldávia estrategicamente cobiçado pela Rússia.

O deputado da Duma – congresso da Rússia – Mijail Diktiriov, do Partido Liberal Democrático apoiador de Putin, defendeu que a União Soviética foi “fragmentada de forma ilegal” com o “aplauso da comunidade internacional”.

“Mil milhas de montanhas e desertos nos separam do resto da população dos EUA”, explicou Louis J. Marinelli, novaiorquino líder de Yes California Independence Campaign que reside na “embaixada” do movimento em Moscou.

Ele insistiu que os californianos são “uma nação diferente do resto dos EUA” e advogou em favor de um referendo para “decidir a independência ou continuar nos USA”. O movimento ganhou eco na imprensa internacional a partir dos fatos da Catalunha.

Esses grupelhos são meras criações dos serviços secretos russos. Mas são reveladores dos ardis da “guerra híbrida” praticada por Moscou, ajudando a compreender o que está acontecendo na Catalunha.

Politólogo putinista sublinhou que não importa que os grupelhos sejam pequenos. No dia da manifestação os jornalistas pró-Russia os tornarão movimentos de repercussão mundial
Politólogo putinista sublinhou que não importa que os grupelhos sejam pequenos.
No dia da manifestação os jornalistas pró-Russia
os tornarão movimentos de repercussão mundial
“Esses grupos são parte de nossa política exterior”, comentou um veterano politólogo russo presente. “Hoje para a Rússia também os marginais são um canal para influenciar o mundo. Quando esses marginais se manifestem diante da embaixada dos EUA em alguma capital europeia, nossas televisões irão filmá-los”.

A Federação Russa enfrenta graves problemas com movimentos secessionistas em seu imenso território, e até mesmo com os tártaros na Crimeia.

Nenhum desses movimentos foi convidado. É claro que Moscou não se interessava sinceramente por nenhum deles, nem mesmo pelos presentes. Eles só fazem sentido se servirem aos planos russos de hegemonia mundial.

Na edição de 2015, os representantes dos movimentos independentistas e de autodeterminação mundiais concluíram que sua reunião demonstrou “de forma evidente a crise e ineficácia do modelo ocidental de direção do Estado”.

O evento aconteceu em 20 de setembro no hotel President, pertencente à administração do Kremlin, e também foi financiado em 30% pelo Estado russo.

As viagens dos delegados foram pagas pelo Fundo de Beneficência Estatal da Rússia, criado por Vladimir Putin e que se encontra “sob o patrocínio” do chefe do Estado.

O patriarca da Igreja Ortodoxa Russa, Kiril, preside o conselho da entidade.

Enric Folch, de Solidaritat Catalana, também falou contra os líderes europeus e garantiu que a Catalunha independente não fará parte da UE. Talvez sim da União Euroasiática anelada por Vladimir Putin.

O discurso e o vídeo das manifestações independentistas foram intensamente aplaudidos e Folch expressou o desejo de que a “próxima conferência seja em Barcelona”, registrou na época o jornal de Madri.


domingo, 29 de outubro de 2017

Enviado de Putin foi estimular
o separatismo na Catalunha

Putin diz que é um assunto interno da Espanha, mas pisca o olho para os separatistas e lhes manda um representante.
Putin diz que é um assunto interno da Espanha,
mas pisca o olho para os separatistas e lhes manda um representante.
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
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continuação do post anterior: Catalunha: táticas testadas no separatismo do leste ucraniano




Dimitri Medóev, um funcionário de Vladimir Putin que faz de ministro de Relações Exteriores da “República de Ossétia do Sul”, abriu um “escritório de representação” em Barcelona enquanto os separatistas se aprontavam a proclamar uma fictícia república independente na Catalunha, informou a agência oficial russa Sputnik

O governo espanhol reafirmou que não reconhece esse país fictício e, a fortiori, a suposta “embaixada”, noticiou o jornal catalão “La Vanguardia”.

A dita “República da Ossétia do Sul” é um território georgiano ocupado pelas tropas russas. Tem 3.900 km2 de superfície e entre 50.000 e 70.000 habitantes.

Ossétia do Sul e a Abcásia (240.000 habitantes), outra região georgiana engolida por Moscou na mesma data, proclamaram sua independência e hoje mantém exército e polícia comum.

Segundo o governo da Geórgia, há por volta de 10.000 soldados de Moscou em bases instaladas nos dois redutos invadidos.

O 'MInistro de Relações Exteriores' da 'Ossétia do Sul', Dimitri Medóev.
O 'Ministro de Relações Exteriores' da 'Ossétia do Sul', Dimitri Medóev.
Em 2006 líderes locais promoveram um referendo separatista onde o 99% votou pela independência.

Essa não foi reconhecida pela comunidade das nações nem pelos organismos internacionais.

Em 2008, a Rússia invadiu militarmente a região e reconheceu a “independência”.

A anexação por via de facto é reconhecida por muito poucos governos bolivarianos como o da Venezuela e da Nicarágua ou satélites da Rússia.

A abertura da “embaixada” na Catalunha é quase anedótica se não fosse reveladora da estratégia russa na crise espanhola.

A política de Putin de anexar territórios de antigas repúblicas soviéticas é bem conhecida.

Mas a instalação em Barcelona de uma base de atividades “culturais e humanitárias”, ainda que simbólica, desvenda o apoio que o Kremlin oferece a uma Catalunha independente estimulando a separação, disseram fontes dos serviços de inteligência espanhol.

Há analogias entre a 'independência' de Ossétia do Sul e a da Catalunha, diz enviado de Putin Na foto: tanques russos invadem a Georgia para consolidar indepedentismos em 2008.
Há analogias entre a 'independência' de Ossétia do Sul e a da Catalunha, diz enviado de Putin
Na foto: tanques russos invadem a Georgia para consolidar indepedentismos em 2008.
O funcionário osseto declarou a “embaixada” em Barcelona visará estabelecer “relações bilaterais” de não se sabe qual entidade, manter contatos com empresários locais, que aliás estão saindo da região, e visitar compatriotas que não se sabia que existiam.

Medóev chegou com uma agenda privada e as únicas informações foram fornecidas pelo site russo Sputnik, que habitualmente ecoa com fidelidade as instruções do Kremlin.

A própria Sputnik, refere “El País”, sublinhou o paralelismo entre o caso catalão e o das repúblicas pró-russas teoricamente independentes mas na prática engolidas por Moscou.

“Há 26 anos o próprio povo da Ossétia do Sul deu os mesmos passos políticos decisivos na via para formar seu próprio Estado”, teria dito Medóev citado por “El País” e Sputnik.

O “ministro” Medóev visitou previamente as regiões italianas de Lombardia e Veneto enquanto faziam um referendo legal para pedir a Roma maior autonomia.

A ação do enviado de Moscou denuncia a ingerência de Putin estimulando rachaduras e dissenções nos países ocidentais dentro de uma estratégia de predomínio universal.

A diplomacia russa declara que o caso catalão é um assunto estritamente interno da Espanha. Mas o presidente russo não poupa críticas aos governos europeus piscando o olho para as tendências de dilaceração no continente.

Mapa da 'República de Ossétia do Sul' com as bases militares russas em 2015.
Mapa da 'República de Ossétia do Sul' com as bases militares russas em 2015.
Falando num foro político em Sochi, Putin afirmou que o caso do Kosovo foi a caixa de Pandora dos problemas posteriores. Apoiando a independência de Kosovo, países como a Espanha teriam posto em risco “sua frágil estabilidade”.

“Acaso não sabiam da existência de contradições semelhantes na mesma Europa? Não sabiam? Sim sabiam. Mas aplaudiram a desintegração de vários Estados [leia-se: satélites da URSS], sem ocultar sua alegria com isso”, acrescentou com vingativo regozijo.

Putin patenteou duplo jogo, comentou o jornal de Madri. E até má fé ou ignorância porque a Espanha nunca reconheceu a independência de Kosovo.

As palavras de Putin em Sochi acabaram expondo à luz um plano acariciado e estimulado desde o Kremlin.

Quem disse que esse plano exclui a América do Sul? Será interessante acompanhar nesta perspectiva a criação de “nações” indígenas e ecológicas com orientação comuno-progressista, segundo o modelo que está se gestando na “trans-amazônia”.

Veja: “Igreja pan-amazônica”: “a última loucura” para desfazer o Brasil? 



domingo, 22 de outubro de 2017

Catalunha: táticas testadas no separatismo do leste ucraniano

Espalhando falsas notícias nas redes sociais. O cadeirante foi agredido, mas em 2011 e por um policial do governo catalão reprimindo 'indignados' Fonte Le Monde.
Espalhando falsas notícias nas redes sociais.
O cadeirante foi agredido, mas em 2011
e por um policial do governo catalão reprimindo 'indignados'
Fonte Le Monde.
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
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continuação do post anterior: “Guerra híbrida” russa em ação na Catalunha




Os exércitos digitais do Kremlin operam com um mesmo padrão: viralizam mensagens e notícias exageradas ou falsas para exacerbar uma crise e fomentar a divisão nos EUA e na Europa, beneficiando a posição de Moscou.

Trata-se de uma guerrilha que monta sites webs com aparência de seriedade.

O DisobedientMedia.com, por exemplo, pretende ser um site de jornalismo de investigação e a esse título nutre todo tipo de falsas teorias conspirativas, metodicamente voltadas para desmoralizar o Ocidente.

O site chegou a publicar notícia denunciando “a perdurável influência do ditador fascista na política espanhola” apresentando antiga estátua do ex-ditador espanhol Francisco Franco montando um cavalo.

Russia News Now, site com aparência de jornal, montou manchete dizendo: “UE: Catalunha pode, Crimeia não”. E “informava” que a União Europeia tinha dado sinal verde à separação da Catalunha, mas que hipocritamente se opunha à invasão russa da Crimeia.

A UE não concordava com o independentismo catalão. A notícia era um falso, mas estimulava o separatismo e ajudava à Rússia.

Espalhando falsas notícias nas redes sociais.
Não eram votantes, mas estudantes. A polícia é a catalã
e a ocorrência é de 14 novembro 2012, em Tarragona. Fonte: Le Monde.
Como única fonte citava uma nota de imprensa do grupo euro-parlamentar Esquerda Unida Europeia (52 cadeiras de 761) que por ideologia de esquerda critica o governo de Madri e é sócio dos separatistas.

Mas o blefe, com texto e manchete idênticos, foi recopiado em sites que servem de correias de transmissão das mensagens oficialistas do Kremlin, como Fort Russ ou News Front.

Oficialmente, Moscou diz que a crise é de competência exclusiva da Espanha, segundo o porta-voz do governo russo Dmitri Peskov. Ele acrescentou que “não julgamos possível envolver-nos de alguma forma”.

Como na Ucrânia.

O chanceler russo, Serguei Lavrov, ecoando declarações de Vladimir Putin, defendeu que “existe legislação nacional e compromissos internacionais” e que “nós assumimos que os processos internos devem se basear nesses princípios”. Palavreado “para inglês ouvir”.

Mas não é só guerra da informação; diversas fontes identificaram métodos de subversão de rua associados à máquina de agitação informativa russa.

Os métodos relembraram ainda episódios do início dos levantamentos separatistas no Leste ucraniano.

O governo autônomo da Catalunha, mais conhecido localmente como Generalitat, defendeu a todo preço que 893 pessoas ficaram feridas pela polícia de Madri no dia do falido referendo.

Porém, a Secretaria de Saúde da mesma Generalitat, responsável pela atenção em toda a região, informou que naquela data só houve quatro ingressos nos hospitais catalães por ocorrências ligadas aos distúrbios.

Só dois deles foram qualificados de “graves”, incluída uma crise cardíaca havida durante uma manifestação. Mas a grande mídia internacional só falou do número de 893 feridos, como se fosse um mantra “sagrado”.

A foto é de um protesto trabalhista dos bombeiros catalães
A polícia que reprime é a catalã. Fonte: Le Monde.
O presidente da Assembleia Nacional Catalã, Jordi Sánchez, dramatizou dizendo que um número tão grande de “feridos” não se verificava na Europa desde a II Guerra Mundial.

Segundo a ONG Médicos Sem Fronteiras, especializada em crises humanitárias no mundo inteiro, não podem ser consideradas “feridas” as pessoas que tiveram algum traumatismo, uma doença, ou desordem física ou nervosa durante os fatos.

Segundo a mesma Secretaria de Saúde catalã, os “feridos” atendidos nos pontos de distúrbios consistiram “majoritariamente em contusões, tonturas e crises de ansiedade”, que foram resolvidos no local.

Na Ucrânia, uma mulher denunciou que seu filho havia sido crucificado por nazistas ucranianos. A mídia fez espalhafato.

A bandeira separatista foi acrescentada com fotomontagem.
O fato tal vez aconteceu nos dias do referendo. Fonte: Le Monde.
Mas depois se soube que não era mãe, que trabalhava para a Rússia e que já tinha aparecido na TV participando em diversos conflitos com identidades fictícias, protagonizando teatralizações que serviam para a propaganda de Putin.

Assim também na Catalunha apareceu uma mulher com a mão enfaixada, dramatizando que a polícia de Madri tinha quebrado todos os seus dedos um por um, além de ter abusado dela.

Até Pep Guardiola, treinador do Manchester City, falando do exterior, declarou-se espantado por tamanha violência: “Quebraram os dedos de uma moça! Atacaram mais de 700 pessoas pelo fato de quererem votar!", noticiou “El País”.

No fim, resultou que a mulher é uma velha militante ecologista e de extrema-esquerda que só tinha uma inflamação num dedo e que fora flagrada participando do quebra-quebra de um carro da polícia. Os médicos lhe ordenaram três dias de repouso...

A estratégia é também velha nos manuais de subversão de rua.


continua no próximo post: Enviado de Putin foi estimular o separatismo na Catalunha


domingo, 15 de outubro de 2017

“Guerra híbrida” russa em ação na Catalunha

“A maquinaria de ingerências russas penetra a crise catalã”, diz “El País”
“A maquinaria de ingerências russas penetra a crise catalã”, diz “El País”
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
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“A maquinaria de ingerências russas penetra a crise catalã” – escreveu o jornal madrilense de grande tiragem “El País” que, aliás, não esconde suas simpatias por todas as formas de esquerda.

O jornal fez uma extensa descrição da guerra da informação que gera noticias falsas sobre o movimento separatista espanhol.

Ele descreve táticas russas análogas às utilizadas para interferir nas eleições nos EUA e na Europa.

“El País” acompanhou sites pró-russos e perfis de redes sociais usando ferramentas de analítica digital. A descrição evoca poderosamente as táticas de desinformação e de “guerra híbrida” aplicadas na ocupação da Crimeia e do Leste ucraniano.

O Kremlin considera o independentismo catalão como mais uma oportunidade para aprofundar as fraturas europeias e consolidar sua influência internacional.

Uma galáxia de páginas web montadas em São Petersburgo com as mais fantasiosas fachadas publica boatos que são logo ecoados por ativistas antiocidentais.

Entre estes se destaca Julian Assange e uma legião de bots, ou seja, milhões de perfis nas redes sociais criados e geridos por robôs que multiplicam as palavras-de-ordem dos serviços secretos russos.

Esse esquema fabrica “viralizações” inautênticas e transforma mentiras estrategicamente excogitadas em tendência partilhada “milhões de vezes” nas redes sociais, explica “El País”.

Por sua vez – e isto o jornal de pensamento socialista não o diz –, a grande imprensa ocidental finge acreditar na autenticidade do fenômeno e o acolhe em seus poderosos meios como a opinião das redes sociais.

'Russia Today' se sentiu pega e tentou logo desclassificar as denúncias, mas sem sucesso
'Russia Today' se sentiu pega e partiu para o ataque pessoal dos denunciantes, sem sucesso
O famigerado “Russia Today”, ou RT, meio criado e abundantemente regado pelo dinheiro do Kremlin, foi um elo de destaque no esquema.

Desde o início da crise catalã, o setor de língua castelhana de “Russia Today” assumiu a bandeira contrária à legalidade constitucional espanhola.

Em setembro ele publicou 42 noticias sobre a Catalunha, várias com manchetes falsas.

Em 12 de setembro, RT reproduziu um tuit atribuído a Assange prognosticando “o nascimento da Catalunha como país ou a guerra civil”.

Segundo as ferramentas analíticas de “El País”, o tuit foi logo passado adiante por 1.700 perfis no Facebook ou no Twitter.

Assange figurava como o principal agitador internacional da crise catalã, disseminando opiniões e meias verdades como se fossem notícias verdadeiras. Se é que ele era o autor...

Segundo dados de Audiense, plataforma de análise social, só em setembro Assange teve quase 940.000 menções no Twitter.

O tuit mais reproduzido no mundo, segundo a ferramenta de medição NewsWhip, foi um do perfil de Julian Assange, datado de 15 de setembro às 18.46:

“Peço a todo o mundo que apoie o direito da Catalunha à autodeterminação. Não se pode permitir que a Espanha recorra normalmente a atos repressivos para impedir a votação”.

A mensagem em inglês obteve mais de 12.000 retuits e 16.000 curtidas.

Esse tuit não seguiu o andamento normal das viralizações. Sua instantaneidade caracterizou a atividade dos bots e perfis falsos robotizados que retuitam maquinalmente mensagens predeterminadas.

Segundo TwitterAudit, 59% dos seguidores de Assange são perfis falsos.

O que tem a ver com a Espanha o ciberativista australiano da WikiLeaks procurado pela Interpol? Não se sabe, mas o certo é que funciona como uma luva na mão do Kremlin.

No quebra-cabeça da Catalunha as peças russas e catalãs separatistas se encaixam na perfeição.
No quebra-cabeça da Catalunha
as peças russas e catalãs separatistas se encaixam na perfeição.
Edward Snowden, ex-analista norte-americano prófugo, instalado comodamente na Rússia, fez dueto com Assange no Twitter.

Seu tuit “a repressão da Espanha é uma violação dos direitos humanos” ganhou num tempo humanamente impossível quase 8.000 retuits e 8.000 curtidas.

Justin Raimondo, diretor do site anarquista AntiWar, comparou os protestos em Barcelona com a repressão chinesa na Praça Tiananmen em 1989. Nessa, o regime comunista chinês passou os tanques por cima dos manifestantes que pediam liberalização.

Raimondo comparou “as autoridades de Madrid com os déspotas de Pequim”.

A ideia não foi dele, mas de Assange, que tuiteou e retuiteou o artigo de Raimondo em quatro ocasiões. Na verdade, talvez não tenha sido de nenhum dos dois, mas de um planificador do Kremlin.

“El País” se estende, citando o esquema de palavras-de-ordem pró-russas multiplicadas por sites “fiéis” e pelo exército de bots russos.

A ferramenta Hamilton 68, da Aliança para Garantir a Democracia, criada pelo German Marshall Fund após a proliferação de notícias falsas nas eleições americanas de 2016, analisa permanentemente 600 contas, automatizadas ou não, que estão na órbita do Kremlin.

Essa ferramenta identificou o site AntiWar como um dos mais difundidos pelas redes pró-Rússia.




domingo, 8 de outubro de 2017

“Disposto a espalhar uma farsa?”: nos laboratórios de Sputnik e Russia Today

Andrew Feinberg quis fazer carreira na RIA Global, da Sputnik e percebeu que teria que repetir falsidades vindas do Kremlin
Andrew Feinberg quis fazer carreira na RIA Global, da Sputnik
e percebeu que teria que repetir falsidades vindas do Kremlin
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs





O jornalista americano Andrew Feinberg recolheu uma alucinante experiência nos poucos meses que trabalhou para os órgãos de imprensa mais mimados pela guerra psicológica russa: a agência Sputnik e Russia Today, segundo relatou a “Slate”.

Andrew sabia da baixa reputação jornalística desses instrumentos putinistas, mas ansiava conseguir um posto como correspondente na Casa Branca.

Fez então uma tentativa na “RIA Global”, propriedade da Sputnik. Porém, como não quis dobrar-se à mentira planificada, foi posto na rua cinco meses depois.

Na entrevista prévia ao emprego a pergunta de Peter Martinichev, chefe do escritório da agência moscovita em Washington, soou como uma rajada de Kalashnikov: “O que o senhor estaria disposto a fazer se nós lhe ordenarmos escrever uma coisa que não é verdade?”

Andrew ficou gelado, pois podia perder o ansiado posto. Mas sua consciência não permitiu: “Eu renunciaria”, disse.

O abacaxi ficou do lado do recrutador russo, que poderia ser denunciado caso se recusasse a admiti-lo.

Então o contratou. Andrew começou a trabalhar em janeiro de 2017.

Desde o primeiro dia ele percebeu que a pergunta não foi um mero teste. Seus chefes russos Peter Martinichev e Anastasia Sheveleva passaram a lhe pedir serviços contrários à ética jornalista americana, que já não é muito respeitosa da verdade.

Durante uma conferência de imprensa, Andrew perguntou ao porta-voz da Casa Branca, Sean Spicer, por que Trump não enviava armas à Ucrânia para sustentar esse país diante da agressão russa.

Putin nega e afirma o contrário do que negou e sua mídia ecoa. 'Na guerra mentira é como terra' diz provérbio. A Rússia vive em guerra da informação permanente
Putin nega e afirma o contrário do que negou e sua mídia ecoa.
'Na guerra mentira é como terra' diz provérbio.
A Rússia vive em guerra da informação permanente
Em Sputnik não tinham dito nada a respeito. Mas quando ele apareceu na redação, percebeu que sua pergunta já tinha sido controlada, censurada e o serviço recusado.

O lema da Sputnik é: “Dizer o que não é dito”. Mas Andrew logo entendeu o seu significado: que o jornalista deve se alinhar com a posição oficial proveniente do Kremlin.

“Aquilo que Sputnik publica deve acertar o passo com o lado da Rússia, esteja ou não de acordo com a verdade”, sublinhou.

Num e-mail, o chefe Martinichev ordenou-lhe nunca mais fazer pergunta na Casa Branca que não fosse aprovada pelos superiores russos.

Desde então, cada pergunta que ele submetia aos chefes de Sputnik voltava com sentido contrário.

Após os ataques americanos às bases dos bombardeiros sírios, responsáveis por despejar gás sarin sobre hospitais civis, matando inúmeras crianças, Andrew voltou a submeter suas perguntas.

Martinichev lhe respondeu que elas já estavam respondidas em um artigo de Russia Today que difundia a posição oficial do Kremlin, e que, portanto, não vinham ao caso.

Uma vez ou outra suas perguntas eram jogadas na lixeira e substituídas por outras aberrantemente enviesadas para servir à máquina de propaganda russa.

O jornalista passou a formular suas indagações na Casa Branca com pavor de ser filmado e ser pego pelos chefes.

Por fim, ele se rendeu à evidência. Enquanto trabalhasse para Sputnik não poderia visar à verdade. Só poderia contribuir para difundir a desinformação gerada em Moscou.

Putin: não havia soldados russos no leste da Ucrânia. Mas estava cheio deles. Russia Today não teme mentir, teme o chefe.
Putin: não havia soldados russos no leste da Ucrânia.
Mas estava cheio deles. Russia Today não teme mentir, teme o chefe.
Martinichev propôs-lhe finalmente fazer uma pergunta que acabaria inocentando os hackers russos no caso da espionagem dos e-mails de Hillary Clinton.

Andrew respondeu que “se sentiria muito mal” em fazer tal pergunta, pois “não havia base alguma nos fatos que pudesse justificá-la”.

O chefe de Sputnik o demitiu na hora. Mas Andrew saiu aliviado e mandou um tweet aos seus seguidores: “Não trabalho mais para a Sputnik. Eu adoraria explicar por quê. Não hesitem em me contatar”.

Na reportagem “Minha vida na rede de propaganda russa” ele contou para a revista “Politico” tudo o que sofreu.

Um de seus chefes, um macedônio de nascença chamado Kovach, tinha experiência em propaganda de guerra. Ele e os russos tinham uma agenda própria “que nem sem sempre incluía toda a verdade”.

Andrew percebeu que o lema de Sputnik “Dizer o que não é dito” significa na realidade “não dizer a verdade”, alegando tratar-se de uma “visualização alternativa”.

Sputnik o havia engajado para usá-lo como um agente não russo e, assim, fazer passar as palavras de ordem provenientes de São Petersburgo.



domingo, 1 de outubro de 2017

Máquina repressiva de Putin
supera esquemas soviéticos

A FSB (Serviço Federal de Segurança da Federação Russa) é a polícia de Putin, sucessora reforçada da KGB soviética
A FSB (Serviço Federal de Segurança da Federação Russa)
é a polícia de Putin, sucessora reforçada da KGB soviética
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs





Em reportagem, o “The Guardian” descreve a polícia de Vladimir Putin – a FSB – como sendo muito mais do que um simples órgão de segurança.

Porque combina funções de polícia e de rede de espionagem, com um poder talvez superior ao das antigas Checa de Lenine, NKVD de Stalin e KGB da URSS.

Putin é o verdadeiro restaurador do poder das antigas polícias secretas, agora sob a sigla FSB. Muitos de seus colegas na ex-KGB estão hoje no coração da Nomenklatura de oligarcas que governam as imensas empresas do Estado.

Os espiões que agem no exterior prestam conta a uma agência especial: a SVR, na qual a FSB tem um poder extraordinário, segundo confessaram agentes pegos pela contraespionagem americana.

As fronteiras estão desde 2003 sob o controle da FSB, com poderes arbitrários. A FSB também está encarregada de combater os “crimes econômicos”, assediando os suspeitos de contatos com o exterior.

A máquina repressiva tem o encargo primário de reprimir os dissidentes
A máquina repressiva tem o encargo primário de sufocar os dissidentes
A agência ainda tem seu quartel-general na Lubianka, o prédio central de Moscou sinistramente notório por conta da repressão e dos assassinatos praticados pela KGB na era soviética.

O número de agentes é um segredo de Estado, mas o especialista Andrei Soldatov estima que sejam pelo menos 200 mil.

Para “The Guardian”, as histórias da NKVD, a polícia política de Stalin, ajudam a compreender o jeito de governar de Vladimir Putin, admirador de Stalin.

Hoje nenhum manual escolar russo fala dos “crimes” de Stalin, só se mencionam os “erros”.

O anúncio de construir um monumento a essas vítimas em Moscou desencadeou um terremoto nas esferas oficiais, pois é raro algum russo não ter um antepassado morto ou deportado.

“O problema é que Putin não pode admitir que o Estado russo é um Estado criminoso”, disse Yan Rachinsky, copresidente de Memorial a maior organização independente que estuda os crimes do socialismo soviético.

Há alguma chance de que poucos nomeados na lista de Andrei Zhukov ainda estejam em vida. Cfr.: Nomes dos carrascos da polícia secreta estalinista saem a público

Centro Histórico da Repressão Política Perm-36 lembra as vítimas da repressão socialista soviética no ex-campo para prisioneiros em Perm, oeste da Sibéria, Rússia
Centro Histórico da Repressão Política Perm-36 lembra
as vítimas da repressão socialista soviética
no ex-campo para prisioneiros em Perm, oeste da Sibéria, Rússia
“Nós não vamos chamar a todos de criminosos, mas precisamos reconhecer a natureza criminosa da organização e a natureza criminosa do Estado naquela época”, disse Nikita Petrov, outro historiador de Memorial, sobre a NKVD e a URSS.

Um deputado nacionalista ligado a Putin tenta levar a Memorial ante os tribunais sob a alegação de que promove a inimizade social.

A descoberta em um porão de Moscou de 34 esqueletos mortos com um tiro na nuca durante o Grande Terror produziu o primeiro choque em 2007, escreveu “The Guardian”.

A descoberta foi feita durante a reforma de uma mansão aristocrática na Rua Nikolskaya 8/1, entre a Praça Vermelha e Lubianka, o ex-quartel geral da KGB.

Em 1937 a NKVD mandava matar uma média de 1.000 pessoas por dia, incluindo antigos bolchevistas, chefes de partidos, oficiais do exército, “elementos etnicamente perigosos” e proprietários.

Putin não quer que isso seja bem conhecido. A incógnita é: o que ele, admirador dos métodos pragmáticos de Stalin, fará se sentir que o povo russo não o acompanha em suas aventuras?

Como pensar usar a fabulosa máquina repressiva da FSB em caso de necessidade para se manter no poder que hoje periclita?



domingo, 24 de setembro de 2017

Nomes dos carrascos da polícia secreta estalinista
saem a público

Cemitério de vítimas de Stalin em Levashovo, São Petersburgo. Muitos russos querem saber o destino final de seus antepassados.
Vala comum de vítimas de Stalin em Levashovo, São Petersburgo.
Muitos russos querem saber o destino final de seus antepassados.
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
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A partir de 1993, Andrei Zhukov percorreu, pelo menos três dias por semana durante duas décadas, os arquivos de Moscou, vasculhando hora após hora as pilhas de ordens emanadas pela NKVD, a polícia secreta de Joseph Stalin continuada pela KGB onde se formou Vladimir Putin.

Ele procurou e encontrou muitos nomes de oficiais e seus respectivos cargos hierárquicos na organização.

Foi a primeira pesquisa metódica sobre os homens que executaram o “Grande Terror” de Stalin entre 1937 e 1938.

Nesse período da ditadura socialista foram presas pelos menos 1,5 milhão de pessoas, 700 mil das quais foram friamente fuziladas.

Oficial da NKVD
Oficial da NKVD
Na verdade, não foi o primeiro estudo sobre os líderes da NKVD nesse monstruoso crime.

Mas sim o primeiro a identificar os investigadores e os algozes que cumpriram a sádica missão.

E na lista há mais de 40 mil nomes!

Zhukov disse que não agiu por motivações políticas:

“Eu sempre fiquei interessado em coisas secretas ou difíceis de achar.

“Comecei isto apenas com um instinto de colecionador”, disse, segundo “The Guardian” de Londres.

Mas os historiadores perceberam a importância de seu trabalho.

A organização Memorial, a mais importante em recuperar a lembrança das vítimas chacinadas e dos locais de horror onde passaram seus últimos dias, publicou um CD com o banco de dados dos nomes e o postou na Internet.

Foram anos de meticuloso trabalho porque a polícia secreta tinha uma ampla faixa de atividades além das prisões e execuções.

“Não todos na lista foram açougueiros, até alguns foram assassinados por não executarem os crimes ordenados.

Grupo de agentes da NKVD
Grupo de agentes da NKVD
“Mas a vasta maioria estava ligada ao terror”, comentou Yan Rachinsky, copresidente de Memorial.

Nikita Petrov, outro historiador de Memorial, sublinhou que “trabalhar na NKVD era prestigioso.

“Nos inícios dos anos 1930, marcados pela pobreza e pela fome, recebia-se para comer bem e ganhava-se um belo uniforme.

“Aqueles que entravam não sabiam que dentro de cinco anos estariam sentenciando milhares de pessoas à morte”, acrescentou.

Cenotáfio aos religiosos assassinados em Levashovo
Cenotáfio aos religiosos assassinados em Levashovo
O banco de dados de Memorial sobre as vítimas da repressão socialista soviética contém por volta de 2.700.000 nomes e mais 600.000 devem ser acrescentados ao longo de 2017.

Rachinsky acha que uma lista completa somaria aproximadamente 12 milhões de nomes, incluindo os deportados ou sentenciados por razões políticas.

Acresce-se que em algumas regiões os algozes locais nunca confeccionaram listagens das vítimas, enquanto em outras os arquivos permanecem fechados.

O jornalista Sergey Parkhomenko lançou a campanha Endereço Final, instalando alguns milhares de placas onde morreram vítimas do socialismo estalinista para lhes render uma derradeira homenagem.

Dos 40.000 agentes registrados por Zhukov, cerca de 10% acabaram sendo executados, encarcerados ou enviados aos campos de concentração.

Alguns voltaram quando Stalin precisou de homens para combater na II Guerra Mundial. Até ganharam medalhas ou se dedicaram a cometer mais homicídios.